Me inspira

Série: Coragem de mudar por Marina Braga

No último post eu me comprometi a fazer a série sobre a Coragem de Mudar e uma das minhas queridas convidadas (sigo achando isso muito chic) topou e escreveu um super texto, sincero, profundo e com uma história muito legal!

Eu não vou me prolongar aqui e vou colocar ele na íntegra, para inspirar e fazer vocês também refletirem sobre as próprias jornadas!

Mudança é uma jornada

A Mari me pediu para falar sobre minha recente mudança de carreira e eu travei. Achei simbólico. É isso que essa palavra faz comigo muitas vezes, eu travo.

Eu tenho 34 anos e acho que mudança nunca foi uma palavra familiar, em todos os sentidos. Eu fui criada naquele ambiente que “tá ruim, mas é melhor não mudar porque pode piorar”. Nasci e cresci no mesmo bairro (só no mesmo prédio nós moramos em 4 apartamentos), estudei na mesma escola a vida toda, de lá fui direto para faculdade na qual me formei, depois para um primeiro emprego que durou 9 anos e para o segundo emprego que durou 5 anos (pequenos recordes entre os da minha geração).

Claro que no meio disso tiveram mudanças, adaptações, etc. Mas eu sempre preferi, mesmo que inconscientemente, manter isso no maior controle possível. Profissionalmente, por exemplo, eu mudei de equipe no mesmo emprego, mudei de área na mesma empresa, mudei de escopo na mesma área  – era tipo morar em 4 apartamentos diferentes no mesmo prédio. rs

Recentemente eu de fato mudei, de casa, de carreira e de estilo de vida. E é daí que vem o convite da Mari. Então, depois de uns dias pensando sobre porque era tão difícil contar das minhas mudanças, levei o tema para a terapia e acho que finalmente entendi. É que pra mim a mudança é uma jornada, e eu ainda estou nela. Nem sei se tem um final para a jornada, ou se a vida vai sendo uma monte de mudanças que não conseguimos dizer onde começam ou terminam. Mas vou tentar colocar aqui um pouco de como vem sendo essa jornada.

Meus últimos anos trabalhando no mundo corporativo foram muito difíceis. Em teoria não parecia. Eu crescia na empresa, era bem avaliada, ganhava bem e fazia atividades que eu gostava. Mas a parte política da coisa, as reuniões de board, as negociações com grandes veículos e agências, os cortes de verba e de pessoas, os alinhamentos com níveis hierárquicos que, invariavelmente, estavam buscando coisas diferentes… Tudo isso vinha tirando o brilho do dia a dia. E tudo isso veio me fazendo questionar qual era o impacto que eu estava tendo no mundo.

Sempre tive essa preocupação com impacto e, até então, não me chateava tanto estar em um trabalho que não impactava diretamente a sociedade. Isso porque eu ia cuidando para que o meu impacto pessoal no dia a dia de trabalho compensasse essa sensação. Mas, no último ano, com todo esse cenário somado a pessoas tóxicas no ambiente de trabalho, eu fui sendo menos capaz de impactar positivamente ao meu redor e, principalmente, eu fui virando uma pessoa negativa, estressada, com o conceito de urgência bem questionável. Enfim, tudo o que eu não queria ser.

Ainda bem que a análise me acompanha há 19 anos e, no paralelo desse histórico profissional tradicional eu também cresci bastante pessoalmente e fui aprendendo e me arriscando em outras frentes que me interessavam, com destaque para o impacto social. Em 2012 fui voluntária por 6 meses da ONG Cidadão Pró Mundo. Depois, em 2015 iniciei um período de 3,5 anos como voluntária do Instituto Fazendo História, alí eu abri meus olhos e coração para o trabalho de impacto social e para as necessidades de crianças e adolescentes em situação de abrigo. No meio desse período, em 2016, eu tive a oportunidade de ser sócia fundadora do Instituto Escuta, projeto maravilhoso de uma amiga de infância. Meu papel no Escuta durou pouco mais de 1 ano e me trouxe uma nova perspectiva para captação de recursos, generosidade e atenção à família com deficientes. Foi também em 2016 que participei de um curso chamado Ressignificando seu Papel no Mundo, da organização Think Twice, uma BAITA experiência que me empurrou para pesquisar sobre cursos e formas de aprender mais sobre o impacto social. E foi assim que, depois de anos lidando com o medo de mudar, eu me inscrevi e me formei no FIS, Formação em Impacto Social do Instituto Amani, em 2019.

Com essa pequena bagagem adquirida bem longe dos escritórios do Itaim, em 2019 senti que a minha conta não fechava mais. Eu vivia estressada (acho que já falei isso né?! Mas vale reforçar). Eu mal tinha tempo de estudar para o curso que tanto demorei a me encorajar. E sem respirar, aquele impacto positivo que cuidava para ter, foi se perdendo e me vi algumas vezes impactando negativamente o ambiente ao meu redor. Vi pessoas muito próximas terem burnout e outras tantas com medo de rir e ser leve em reuniões bobas e simples.

A partir desse contexto retomei com mais força a minha jornada de mudança. Falo que retomei pois, ao escrever aqui o tanto de coisa que fiz além do meu trabalho corporativo nesses últimos anos, só me reforça como mudança é uma jornada, e não acontece da noite para o dia, com um ponto final.

E assim, em abril de 2020, eu me desliguei da empresa que estava e ingressei como Coordenadora de Comunicação em uma ONG, que é também uma start up. É novidade para tudo quanto é lado. Topei ganhar 50% menos e rever todos meus hábitos de consumo, parei de falar de bens de consumo para atuar em gestão de pessoas no setor público, sai do setor privado com suas mensagem de “como vender mais”, para pensar em como contar histórias de impacto; sai de empresas multinacionais que levam meses para tomar decisões (para decidir viver o modelo agile as empresas levam 1 ano rs) e fui viver o que é ser ágil e produtivo na prática.

Agora era o momento que eu adoraria repetir os contos de fada e escrever “e eu e o terceiro setor vivemos felizes para sempre”. Mas, real como é a vida, posso dizer que não tem sido fácil e que é isso que tem me feito entender que a mudança é uma jornada. A gente pode calcular como gastar menos e fazer caber o salário, mas todo o resto não é sobre cálculo, é sobre experiência, adaptação, resiliência, auto cuidado e paciência.

Eu tenho dias e dias. Tem dias de muita alegria e certeza que estou no caminho que queria estar. Tem outros dias que só me questiono quais são os outros possíveis caminhos que talvez eu não esteja enxergando. Mas uma coisa eu posso dizer: em nenhum dos dias, por enquanto (e não descarto que esse estado mude em algum momento), eu quero voltar ao que era antes. E zero cuspindo no prato que comi. Sou grata à minha jornada até aqui, mas hoje eu entendo que mudar é importante e que é justamente a mudança que tem me feito caminhar na direção de onde quero estar. Mesmo que não saiba dizer, 100%, que lugar é esse ainda. Sigo caminhando.”

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