O fim da tarde normalmente é um dos horários agitados das casas. Antes, com as crianças menores, era até mesmo chamado de hora da bruxa, mas, verdade seja dita, atualmente é um momento que eu gosto bastante. Faço o meu máximo para já encerrar as atividades de trabalho e vou para a cozinha preparar o jantar. Adoro esse meu momento, ainda que, muitas vezes, haja gritos que variam entre “vai tomar banho” e “desce pra comer, tá na mesa”.
Um dos hábitos que cultivamos desde que nos mudamos é o de admirar o pôr do sol. Tem uma expressão em inglês que traduz o que sentimos por ele: “don’t take it for granted”, ou, em tradução livre, “não trate como algo garantido”. Temos o costume de apreciá-lo diariamente. Virou um hábito mesmo. Aquele que vê primeiro já o anuncia: “Olha a cor do sol”. Não ousamos mudar. O Lucas chamou assim uma vez, e até hoje, todos cientes de que é o pôr do sol, seguimos chamando assim.
Tudo isso para dizer que era mais um desses dias quando o Pedro anunciou a lindíssima cor do sol e eu parei o que estava fazendo para ver com ele. Porém, sabem como é: água fervendo, macarrão quase empapando, e eu logo tive que descer para ajustar as coisas do jantar. E foi assim, entre virar para a panela e olhar novamente pela janela da cozinha, que me dei conta de que ele já havia ido embora.
E como costuma acontecer comigo, logo veio a reflexão: tem coisas que a vida nos oferece de graça, quase todo dia, sem aviso e sem garantia de repetição.
O pôr do sol é uma delas.
Você pode estar ali, na varanda, na janela, no meio da rua, e ele acontece. Silencioso, generoso, absolutamente indiferente à sua agenda. O céu começa a mudar de cor devagar, como se estivesse se preparando para alguma coisa grande. E é grande. É lindo. É um espetáculo que dura minutos e que, se você piscar no momento errado, já foi.
Abaixou a cabeça para responder só uma mensagem? Acabou. Já foi. Rápido assim.
A chance do hoje já passou. Pode ser que amanhã o céu esteja nublado. Pode ser que a vida esteja diferente. Pode ser muita coisa, mas o agora, esse aqui, não volta. Como já diria o mestre Lulu Santos: “Hoje o tempo voa, amor / Escorre pelas mãos.”
O pôr do sol não nos pede nada além de presença. Não exige que a gente entenda. Não precisa de contexto nem de explicação. Só pede que a gente esteja ali, de verdade, com os olhos abertos e a cabeça quieta por um momento.
Presente. Eu adoro os clichês, pois eles são tão reais. O presente é um presente. E, como todo presente, ele precisa ser recebido. Percebido.
Hoje o sol se prepara para dormir. Amanhã, se Deus quiser, ele volta para nos acordar de novo. Mas esse pôr do sol, o de hoje, com essas cores e essa luz exata, esse é único.