Reflexões

Só quem vive bem os agostos é merecedor da primavera!

Eu não me lembro exatamente quando foi que encontrei esse texto e nem por onde, mas me recordo de ter admirado a forma tão doce e poética e de logo compartilhar com a minha mãe (aniversariante do mês de agosto), para que ela pudesse reconhecer as mesmas sensações boas que ele me trouxe. No fim das contas, é tão louco como as coisas vão se conectando na nossa vida. Esses dias eu olhei com tanto orgulho a nossa jabuticabeira lotada de frutos e pensei que gostaria de escrever sobre isso (até porque faz um bom tempo que estou ensaiando meu retorno aos posts semanais), mas não tinha ainda encontrado a melhor forma. E foi tão simples. Bastou reler esse texto que me fez refletir sobre os processos e tempos. Foi praticamente um ano e meio tentando, e não tendo bons resultados. Algumas vezes ela encheu de “florzinhas brancas”, mas que logo viraram jabuticabas pequeninas demais, e sem gosto nenhum. Outras vezes ela simplesmente não fez nada. Ficou ali; linda, grande, mas sem nenhuma resposta. Mas nós insistimos (um pequeno mérito a mais para meu marido; ok, mas ainda assim podendo usar o plural). Entendemos que com o tempo ela poderia nos presentear. Com nossa dedicação em uma rega bem mais frequente (eu diria que religiosamente frequente) e com a ajuda de vizinhos queridos durante nossa breve ausência, ela poderia encontrar o caminho para dar frutos. E foi o que aconteceu. As coisas assentaram. O tempo aconteceu. E ela lotou de frutas. Mas assim, lotou de verdade. São tantas que estamos distribuindo para algumas pessoas queridas (correndo para sermos mais rápidos do que os passarinhos e maritacas do condomínio). E como muito bem escrito por Miryan Lucy de Rezende: “…eu fiquei pensando como elas, as árvores, aceitam as estações que, se as estremecem, também lhes florescem os galhos. Mas tudo a seu tempo.” Deixo aqui o texto completo para que mais pessoas se emocionem e se esforcem a enxergar a beleza que tem no simples observar dos fatos do cotidiano, com um pouquinho mais de atenção. “Lembro-me bem. Foi quando julho se foi, que um vento mais gelado, mais destemperado, que arrastava ainda folhas deixadas pelo outono, me disse algumas verdades. Convenceu-me de que o céu começaria a apresentar metamorfoses avermelhadas. Que a poeira levantada por ele daria lições de que as coisas nem sempre ficam no mesmo lugar e que é preciso aceitar que a poeira só assenta depois que os redemoinhos se vão. Foi quando julho se foi que a minha solidão me convidou para uma conversa. E me contou de tempo de esperas. E me disse que o barulho das árvores tinha algo a dizer sobre aceitação. E eu fiquei pensando como elas, as árvores, aceitam as estações que, se as estremecem, também lhes florescem os galhos. Mas tudo a seu tempo. Foi em agosto que descobri que os cachorros loucos são, na verdade, os uivos que não lançamos ao vento. São nossos estremecimentos particulares que a nossa rigidez de certezas não nos permite encarar. O mês de agosto tem muito a ensinar. Porque agosto é mês jardineiro, é dentro dele, berço do inverno, que as sementes dormem. Aguardam seu tempo de brotar. Agosto é guardador da boa-nova, preparador de flores. Agosto é quando Deus deixa a natureza traduzir visivelmente o tempo das mutações. Mude, diz agosto, em seu recado de sementes. Aceite, diz agosto, com seu jeito frio de vento que levanta poeira e a faz avermelhar o céu. Compartilhe, diz agosto. Agasalhos, sopas quentinhas, cafés com chocolate, abraços mais apertados – eles também aquecem a alma e aninham o corpo. Distribua mais afetos, que inverno é acolhimento, é tempo de preparar setembro. E, de setembro, todos sabemos o que esperar. Esperamos a arrebentação das cores, que com seus mais variados nomes vêm em forma de flores. Vamos apreciar agosto, recebê-lo com o espanto feliz de quem não desafia ventos. Que ele desarrume e espalhe suas folhas e levante suas poeiras. Aceite as esperas, mas coloque floreiras na janela. Só quem vive bem os agostos é merecedor da primavera!”

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